Reuniam-se toda semana no mesmo boteco, na terra dos botecos. Era pelo menos uma cerveja para cada um; menos o professor de português que era assíduo de uma limonada suíça. Pregava que lhe fazia bem para a voz. De fato, além de seu português castiço, sua voz era imponente; impositiva mesmo. Não era diferente do outro habitué o tido como o mais intelectual da turma. Devorava os jornais e livros. Falava de Camus, Thomas Mann, Lipman, Dostoiévski, Nietzsche com uma naturalidade impressionante e sem o pedantismo dos intelectuais que povoam as grandes mídias. Outro frequentador era um contador de histórias comparável ao personagem do filme Peixe Grande e outras histórias. Diante de qualquer assunto, sacava da algibeira uma estória que alegava ter acontecido consigo ou com outra pessoa de seu conhecimento. Aí sempre tinha uma filosofia popular.
Eram conversas sempre muito animadas, principalmente no sábado à tarde, quando eram liberados pelas namoradas, esposas e afins para estarem por mais tempo a trocar idéias, firmar posições, fazer retrospectivas e previsões. Neste dia eram mais que pontuais, favorecidos pela calma que se estabelecia na esquina do boteco. O movimento de carros e seus ruídos irritantes era muito pequeno. Era mais humano aquele ponto. Mais pessoas menos tecnologia.
Neste cenário favorecido, a conversa corria solta e descontraída, mesmo quando o assunto era mais denso, sério e mesmo sombrio. Nunca haviam dito nem mesmo se dado conta, mas sobrava sabedoria em cada observação. Por esta razão o dono do bar sempre afiançava: Podem existir conhecimentos e técnicas em outros personagens mais famosos por aí, mas aqui tem sabedoria. Sabia que ali se interpunham questões fundamentais para o pensar, sentir e internalizar o mundo moderno. De vez em quando outros personagens formavam uma roda em volta deles, querendo ver estimulados os seus processos educacionais. Tinham certeza que aprendiam mais ali do que no formalismo das salas de aula. Era um evento midiático rudimentar, destes que estimulam a análise de situações e posturas e que propiciam a transformação de um ser passivo e sem ideia em um homem pensante. Havia uma imparcialidade extensiva, inclusive política e partidária. Ali o pulsar da vida: pensar e sentir. Quando apenas se sente a vida, só podemos reagir. Quando conseguimos conciliar o sentir e o pensar, equilibramos a magia da ação consciente com uma pitada de intuição e tendemos a ser mais felizes. Isto é existir!
Mais ainda, lá se aprendia a aprender; descobrir, conhecer e sempre criar alternativas; porque ninguém radicalizava posições, mesmo quando se discutia religião e política. Era a missão deles mesmo não expressa exercitar o processo de levantar questões mesmo em situações em que haja a massificação pelas opiniões predominantes dos mais consagrados. Divertiam-se com o contraditório, como a brincar com o ato de filosofar aqui entendido como o exercício da dúvida. Este cenário fabulosamente rico levou o jornalista - que sempre estava com a turma - a organizar a conversa em partes e permitir que mais pessoas tivessem acesso ao conteúdo deles. Ele trabalha em um destes periódicos tradicionais e estava acostumado com copidesque e diagramação - estas coisas normais em um jornal. Bebia direto das fontes de notícias. Para ele não foi difícil, organizar o conteúdo, mesmo porque ele participava ativamente das calorosas discussões. Ele sabe que muita coisa ficará perdida; mas antes o pouco extraído e rico do que o muito, descartável, preservado e disseminado. Daí surgir este site que apresenta estes personagens em plena conversa de boteco.